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Pesquisador venezuelano aponta “discurso ambíguo” do Brasil

A atuação do Brasil no processo de integração e desenvolvimento da América do Sul, defendida pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, é motivo de controvérsia. Para venezuelano Edgardo Lander, professor de Sociologia da Universidade Central da Venezuela, o Brasil adota um “discurso ambíguo”.

Lander diz que o Brasil prega a união, mas não demonstra interesse de fato num projeto político de integração produtiva. Segundo ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está focado principalmente nos países desenvolvidos, porque “depende muito das exportações para o Norte”.

O brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira, cientista político e historiador, discorda. Para ele, o Brasil faz a política certa como negociador global, diversificando as parcerias comerciais. Atualmente, “já exporta mais para os países em desenvolvimento do que para os desenvolvidos”, diz.

Banderia afirma que, hoje, “o Brasil é uma potência industrial. O Chávez pode fazer esse teatro todo, mas a Venezuela não tem a força que tem o Brasil”, compara, referindo-se ao fato de o presidente reeleito da Venezuela, Hugo Chávez, adotar uma postura mais crítica em relação aos Estados Unidos, ao neoliberalismo e, mais recentemente, ao próprio capitalismo.

Em sua posse, na última semana, o venezuelano anunciou inclusive a transformação da Venezuela num Estado socialista, sob o lema “Pátria, socialismo ou morte”, e anunciou a estatização de empresas.

Edgardo Lander avalia que a Venezuela “tem mais coerência”, porque “está claro que a sobrevivência de seu projeto político depende da integração”.

O historiador brasileiro afirma que “Chávez é um Fidel com petróleo na mão. A Venezuela é responsável por 15% do petróleo norte-americano. Por isso o Chávez está avançando, porque percebe debilidade nos Estados Unidos. Mas isso não quer dizer que vai fazer um governo estatal, no modelo soviético. Vai estatizar apenas setores vitais, como telefonia e eletricidade”.

Lander diz que devido ao alto valor do petróleo e à instabilidade no Oriente Médio (principal fonte do combustível no mundo), a Venezuela não teria grandes vínculos, apesar da forte ligação comercial. “Pode vender para qualquer um, por isso tem mais autonomia”.

O sociólogo venezuelano acha que a integração “depende do Brasil, o país de maior peso”. O historiador brasileiro diz que a integração não se faz da noite para o dia. “O que o Brasil pode fazer com [Evo] Morales, [Hugo] Chávez, [Nestor] Kirchner? Cada país tem sua dinâmica”, afirma, referindo-se aos presidentes da Bolívia, Venezuela e Argentina. “Até hoje a União Européia tem problemas”.

Por Mateus Matos