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A última gota de paz

Novamente Bagdá se torna cenário do sinistro embargo à paz. A morte do brasileiro Sérgio Vieira de Melo é também uma grave lesão à paz. A ONU tem demonstrado inúmeras vezes impotente ante ao deslinde de guerras e de negociações nebulosas envolvendo não só o destino de um país e sua horda de miseráveis… Mas, sobretudo a possibilidade de resolução pacífica dos conflitos internacionais.

Bagdá envolta numa áurea das mil e uma noites parece reproduzir as trevas medievais e jogar no abismo a crença que a civilização e a dignidade humana são valores indispensáveis para qualquer futuro possível.

Nem toda impassível calma e controle de Sérgio fora suficiente para abrandar novamente os nervos das pessoas, sabedor que a presença da ONU era de curial importância para encurtar a distância entre o povo iraquiano e as autoridades americanas.

Sérgio representava a melhor chance de termos um brasileiro no cargo de Secretário-Geral da ONU, mas que apenas tal privilégio, era a melhor chance de seu profissionalismo impecável trabalhar em prol da paz, e com a eficiência que lhe era peculiar e quase infalível.

O caminhão terrorista atingiu bem mais que uma autoridade da ONU, detonou também a possibilidade de diálogo e certamente a missão internacional seria gravemente arranhada.

Sérgio não morreu imediatamente, e sim aos poucos, e ainda em vida comandava as equipes de salvamento. O estúpido terrorismo explodiu e matou barbaramente quem trabalhava pela restituição da normalidade política do Iraque que cada vez mais se distancia.

A posição estratégica do Iraque cercada por potenciais inimigos dos EUA poderá potencializar novos conflitos armados e reduzir a possibilidade da paz a pó… que se espalha pelo deserto e abandona de vez o território iraquiano.

O grupo terrorista apontado como responsável pelo atentado fora pelo Bush decantado como extinto e eliminado e, no entanto, mais uma vez ocorreu um erro de mira ou tática… o que nos remete novamente a um questionamento crucial: era mesmo a guerra dos EUA contra o Iraque necessária ? Não haveria saudáveis meios diplomáticos, e outros da política internacional capazes de compor o litígio?

O Iraque se tornou área da batalha campal entre o Oriente e o Ocidente, fontes seguras da inteligência afirmam convocações pelo rádio de voluntários, e mais de três mil iraquianos cruzaram a fronteira ilegalmente para engrossar as fileiras da guerrilha.

Dinamitaram poços, refinarias de petróleo e até mesmo uma adutora de água. Unindo o líquido precioso à enorme imundice das ruas iraquianas, combalidas da destruição contínua e pela miséria implacável.

E mais uma vez, a população civil iraquiana fica à míngua ante aos invasores, mediadores e guerrilheiros. Num país onde o diálogo desapareceu. Ou talvez nunca tenha existido.

Paul Bremer (administrador civil americano) num acesso furioso de cegueira e loucura afirmava que a maior parte do país está em paz… paz armada, paz insólita…

Enquanto isto há alguns minutos atrás Vieira de Melo morria pedindo água, sinal de hemorragia interna fatal, com a mesma veemência que lutou pela paz, sempre engajado em missões difíceis e estratégicas. E suas últimas palavras foram para que não desistissem da missão de paz da ONU.

Água e paz uma solução simples e muitas vezes inalcançável, seja pela poluição das águas no planeta, seja pela imensidão dos desertos, seja pela incompreensão dos poderosos que teimam ignorar a dignidade humana e impor a fórceps a primazia de seu poder e seus interesses.

A desastrosa ocupação do Iraque pelos americanos se revela inábil e assassina e a manutenção desta, é tremendamente onerosa e desnecessária face ao custo menor que teria a reconstrução democrática do país.

Aliás, está cada vez mais distante esta possibilidade e, novamente se ergue no horizonte a solução de um novo ditador simpático e servil para assumir o governo iraquiano. É a semente para um novo Sadam Husseim.Inaugurando um fatídico ciclo vicioso.

O caríssimo unilateralismo americano vitima a paz e a credibilidade das organizações internacionais como a ONU. Clamamos por PAZ! Já que a guerra, não se conseguiu mesmo evitar…

Paz!

Por Mateus Matos