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Breves apontamentos sobre a Homofobia


Publicado desde 07/08/2014 02:32:04
Camila  Andrade 

        A homofobia tem se revelado um importante jogo poltico para a sociedade brasileira, marcada pela manipulao das massas e encoberta por um disfarce conceitual e analtico que visa enquadrar a averso e o mero desgosto pelo comportamento homossexual em planos distintos, afirmando que a conduta homofbica no pode ser caracterizada pela simples discordncia, muito embora esta discordncia implique a retirada paulatina dos direitos fundamentais da totalidade de um grupo de pessoas.

interessante observar que grande parte da luta poltica contra a homossexualidade mantm a mesma ideologia que a histria revela, contudo, apresentando uma nova face. O catolicismo, que antes se mostrava como o maior obstculo concesso de direitos civis direitos estes plenamente admitidos aos heterossexuais, contudo, restringidos aos casais homoafetivos -, atualmente no o maior pilar da intolerncia sexual, embora no tenha modificado sua postura. Hoje o protestantismo inovador de Lutero tem tomado conta de respeitosa parcela da populao brasileira, inculcando em seus pensamentos os ideais criacionistas de forma um tanto mais fundamentalista do que aquela adotada pela Igreja Catlica. No se est aqui afirmando que o medievalismo retornou s ruas e s casas, mas que seus ideais no sucumbiram, tendo sido resgatados pelas igrejas evanglicas que, cada vez mais, tomam conta das famlias brasileiras.

Um processo de alienao facilmente verificado quando se observa as classes menos favorecidas, para as quais as palavras proferidas por um pastor soam como uma epifania divina, um alcanar de uma verdade objetiva que, por bvio, ser absoluta. Afinal, como contestar a palavra de Deus? Argumentos so inteis, por mais lgicos que paream ser. Basta uma frase para contestar qualquer argumento, aparentemente de maneira heroica e eivada de brilhantismo: est escrito, diz o alienado crente. A discusso se torna impossvel logo aps tal frase ser dita de maneira to ingnua e confiante.

Curiosa a observao de que a evangelizao do Brasil se revela diretamente proporcional ao crescimento da onda de reacionarismo que avana em todos os setores do pas. Especialmente integrado pela egosta e, muitas vezes, medocre classe mdia que habita os centros das metrpoles, o movimento reacionrio se alastra como um incndio numa casa de madeira velha, depreciando as conquistas das minorias da mesma forma que o fogo a tudo destri e s conserva as lembranas de um tempo melhor. Classe mdia no apenas em poderio econmico, mas mdia em ideologia, em conhecimento poltico, em senso democrtico, sempre circunscrita a si mesma, sem jamais se preocupar com o interesse alheio. Pessoas de bem, iro dizer. Reprodutoras incorrigveis de lendas urbanas acerca das vantagens das minorias oprimidas. Afinal, dizem, hoje mais vantajoso ser oprimido do que ser opressor.

Lamentvel a consonncia entre a expanso evanglica e o aumento do discurso reacionrio. Monstro mitolgico que surge da alienao provocada pela cobia de muitos que ignoram a necessidade de outros ainda mais numerosos e a discriminao de alguns nem to maioritrios. Surge no seio do totalitarismo fascista que prega a ilimitada liberdade de expresso, mesmo quando essa significa a opresso daqueles sem bom humor.

O movimento reacionrio corrobora com o aumento dos preconceitos ao reagir contrariamente tentativa de revolucionar o sistema poltico e econmico que visa igualar as classes sociais, etnias e gneros.  Afirma-se que no se homofbico, afinal, no se doente. O que parece no ser levado em conta que a expresso homofobia carrega em seu mago um sem-nmero de significados que no mais podem ser resumidos a uma mera anlise etimolgica da palavra. A complexidade de tal fenmeno social em muito extravasa o temor irracional que uma pessoa pode sentir ao se deparar com uma barata em sua cama. A homofobia ainda pode configurar um quadro clnico, consistindo numa psicopatologia que gera, no agente, um medo incontrolvel, um transtorno de ansiedade que se manifesta quando o mesmo entra em contato com tal situao. O que parece ser olvidado, talvez propositadamente, que o medo circunscrito caracteriza uma minoria de atitudes homofbicas que no podem ser entendidas apenas como uma manifestao doentia que requer tratamento mdico ou psicolgico. Mas por que uma pessoa que claramente demonstra desgosto, dio ou elevado incmodo com o que toda uma classe de pessoas fazem ou gostam no assume seu preconceito? Talvez a resposta venha rapidamente e, num piscar de olhos, j se afirme que no se trata de um preconceito, dado que tal palavra denota um conceito atribudo a algo ou algum antes de se tomar conhecimento da realidade desse algo ou algum. Tal pessoa logo diria conhecer essas pessoas de que desgosta, assim como conheceria seus comportamentos, os quais igualmente repulsa, o que, claro, eximir-lhe-ia de toda culpa, dado que seu conceito no foi preconcebido, mas ps-concebido, quando j se conhecia tal realidade. O problema se encontra no fato de que essa realidade um tanto quanto distorcida quando sua verificao se d por meio do mtodo cientfico de confirmao de hipteses cujas respostas j foram previamente e, em tese, provisoriamente, estabelecidas. Qualquer pesquisador sabe que o objetivo de seu projeto cientfico encontrar a resposta para determinado problema e que esta resposta pode ser facilmente induzida quando se pesquisa apenas nas fontes que parecem corrobor-la, ignorando solenemente as demais.  A homofobia no e nunca foi individual, de modo que o seu combate voltado especialmente a indivduos ou mesmo a pequenos grupos no tem como se mostrar efetivo. O enfrentamento de tal fenmeno somente pode ocorrer dentro do mbito institucional, uma vez que so as instituies que o promovem a partir da veiculao de discursos enraizados pela noo de moral absoluta e pelos sempre lembrados bons costumes, alicerces da sociedade e da famlia (convencional) brasileira. Na era do suposto politicamente correto, deixou-se de se demonstrar orgulho ao se autoafirmar homofbico, afinal, finge-se pregar a tolerncia e o repdio discriminao quando se est em pblico, permanecendo, contudo, a manifest-lo dentro de seu seleto crculo social. Ainda se vive, embora no completamente, a poca em que ser homofbico sinnimo de virilidade e hombridade. No difcil encontrar um homem que, gabando-se de sua homofobia, afirma odiar homossexuais e no se assemelhar em absolutamente nada com eles. Ocorre que tais indivduos no necessariamente o fazem por vontade prpria, mas porque o verdadeiro temor provocado pela homofobia no se configura em um medo de quem se relaciona com o mesmo sexo, mas sim num infindvel temor de ser intitulado de homossexual pela sociedade e por aqueles de seu convvio. Homens que se dizem to seguros de sua sexualidade no precisariam ficar to ofendidos quando confundidos com um homossexual, mas o ficam porque aquilo que pensam sobre ele se mostra mais relevante do que aquilo que ele efetivamente ou acredita ser. A moral de uma sociedade julga seus componentes, relacionando-se ao modo como determinada pessoa vista pelos demais e como ela teme ser vista ou deseja ser vista por estes, impondo um desejo de ficar bem diante dos outros. A moral refere-se s ordens e costumes que regem os indivduos isoladamente e em seu convvio em sociedade, mas o que deve ser levado em conta que pode realmente haver apenas uma, mas tambm podem haver vrias morais em coexistncia.

Hoje a homofobia tem sido vista com maus olhos por uma numerosa parcela de pessoas que no o deixaram de ser, mas intentam disfarar tal repulsa numa hipcrita busca pelo ttulo de tolerante, intelectual e politicamente correto. Assim, no incomum escutar comentrios de pessoas que j iniciam suas frases afirmando no serem homofbicas e seguem com um sempre presente mas. Afirmam: no sou homofbico, mas no concordo com o casamento igualitrio; no sou homofbico, mas no quero que meus filhos vejam dois homens se beijando; no sou homofbico, mas no preciso aceitar essa imoralidade; no sou homofbico, mas Deus no concorda com o comportamento homossexual; no sou homofbico, mas a homossexualidade a porta para a pedofilia. Para tais indivduos, a homofobia parece estar circunscrita ao homicdio e s agresses fsicas, estas, preferencialmente, representadas por leses corporais de natureza grave ou gravssima, porque gay precisa apanhar de vez em quando para aprender a deixar de ser sem-vergonha.

A vida sexual precisa atender aos requisitos previamente estabelecidos pela moral heterossexual, machista e monogmica. A homossexualidade confundida com uma ideologia, com um culto a comportamentos inadequados, contrrios boa moral crist. Hteros so hteros apenas por que viro muitos casais hteros se beijando nas ruas? Hteros no conseguem controlar sua exacerbada heterossexualidade e estupram crianas do sexo oposto sempre que a oportunidade vem tona? Ora, se a homossexualidade de um indivduo to elevada que seu luxurioso desejo de estar com algum do mesmo sexo se torna incontrolvel a ponto desse indivduo no poder evitar constranger uma criana do mesmo sexo a com ele praticar um ato libidinoso, por que com os heterossexuais seria diferente? Mas esses homossexuais querem impor o seu modo de vida para todos, inclusive para aqueles que no concordam. Bem, de se crer que proibir os homossexuais de fazerem tudo aquilo que os heterossexuais tm direito parece ser uma maneira de impor o modo de vida heterossexual para todos. Ou no?

H quem defenda a ideia de que a moral absoluta e apriorstica, cuja validade atemporal e suprema, o que faz com que suas normas sejam intrinsecamente objetivas. Dessa concepo de moral absolutista decorre a ideia de que no h uma criao de valores, mas um descobrimento de quais so esses valores. Contudo, essa viso se revela intolerante em relao quilo que no concorde com o preceituado por tal moral, afinal, sendo ela superior, no haveria sentido em no lhe conferir razo, sendo impretervel que se descarte o que se revela como discordante. O fundamentalismo religioso um exemplo de manifestao da crena numa moral nica e universal, inerentemente inflexvel e intolerante para com a diversidade que caracteriza os indivduos.  

Este conteúdo foi redigido e finalizado em 30/07/2014, segundo o seu autor e responsável.
Representa, única e exclusivamente, a opinião particular dopróprio autor. Ele é o único responsável pelas informaes acima dispostas e publicadas, an?lises e cr?ticas assumidas, informaes pesquisadas, inclu?das e citaes realizadas.


Camila Damasceno De  Andrade 
Membro desde julho de 2014
*
* segundo opróprio membro em 29 de julho de 2014


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